Selic a 13,75%: o que muda (e o que não muda) nas suas dívidas

Arte do artigo sobre o que o corte da Selic para 13,75 por cento muda no cartao, cheque especial, consignado e financiamento

Publicado em: 21 de setembro de 2026

O Copom cortou a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro. Foi o quinto corte seguido, e a manchete padrão diz que “o crédito vai ficar mais barato”. Só que a conta que chega na sua fatura não funciona assim.

O juro médio que os bancos cobram das famílias estava em 60,04% ao ano em julho, segundo o Banco Central. A Selic é 13,75%. A diferença entre os dois números — mais de 46 pontos — é o que de fato determina quanto você paga. E essa diferença não cai junto com a Selic.

Abaixo, dívida por dívida: onde o corte chega, onde ele quase não chega, e o que fazer em cada caso.

Rotativo do cartão: o corte não chega aqui

O rotativo é o que acontece quando você paga menos que o total da fatura. É a dívida mais cara que existe no crédito ao consumidor brasileiro, e ela praticamente não acompanha a Selic — é precificada por risco de inadimplência, não por custo de captação.

Existe, porém, um freio legal importante e pouco conhecido. Desde 1º de janeiro de 2024, por regra que veio junto com a lei do Desenrola, o total da dívida do rotativo não pode ultrapassar o dobro do valor original. Se você deixou R$ 500 em aberto, a cobrança para de crescer em R$ 1.000, somados juros e encargos.

Dois detalhes que importam:

  • O teto vale também para o parcelamento da fatura, e não só para o rotativo.
  • Ele se aplica a dívidas contraídas a partir de 2024. Dívidas anteriores não estão protegidas.

O que fazer: o rotativo é para sair, não para administrar. Se não dá para quitar a fatura inteira, troque o rotativo por uma linha mais barata — crédito pessoal, ou consignado se você tiver direito. A diferença de taxa é de centenas de pontos percentuais.

Cheque especial: teto de 8% ao mês

Desde janeiro de 2020, o Conselho Monetário Nacional limita o juro do cheque especial a 8% ao mês. Parece pouco por ser um número de um dígito, mas 8% ao mês compostos equivalem a cerca de 151,8% ao ano.

A mesma regra permitiu aos bancos cobrar uma tarifa de 0,25% sobre o limite que exceder R$ 500, usado ou não. Vale conferir na sua conta se essa tarifa está sendo cobrada — e, se você nunca usa o cheque especial, reduzir ou zerar o limite resolve.

O que fazer: tratar o cheque especial como emergência de poucos dias, nunca como extensão do salário. Para qualquer coisa além disso, um crédito pessoal sai mais barato.

Consignado: aqui o corte pode chegar

O consignado é a linha mais sensível ao custo do dinheiro, porque o risco é baixo — a parcela sai direto da folha ou do benefício. É também a única modalidade com teto definido por um conselho, e não pelo mercado.

Para aposentados e pensionistas do INSS, o Conselho Nacional de Previdência Social manteve em 2026 os limites de:

  • 1,80% ao mês para o empréstimo consignado — cerca de 23,9% ao ano
  • 2,67% ao mês para o cartão consignado e o cartão benefício — cerca de 37,2% ao ano

Esses são tetos, não a taxa que você tem que aceitar. Com a Selic caindo, bancos tendem a competir abaixo do limite para ganhar contrato. Vale cotar em mais de uma instituição.

O que fazer: se você já tem um consignado contratado quando a Selic estava mais alta, peça portabilidade. Você leva a dívida para outro banco com taxa menor, e o banco atual é obrigado a receber a proposta — muitas vezes ele cobre a oferta para não perder o cliente.

Financiamento imobiliário: mexe devagar

O crédito imobiliário é o que menos reage a uma decisão isolada do Copom, por dois motivos: boa parte dos contratos é corrigida por TR mais uma taxa fixa, e o funding vem majoritariamente da poupança, cujo rendimento não mudou com o corte.

Na prática, quedas da Selic chegam ao financiamento imobiliário com meses de atraso e de forma diluída — e afetam principalmente contratos novos, não os que já estão em andamento.

O que fazer: se você já tem financiamento, a amortização extraordinária costuma render mais do que esperar a taxa cair. Se está para contratar, compare o CET (Custo Efetivo Total) e não só a taxa anunciada.

Financiamento de veículo e crédito pessoal

São as linhas do meio: acompanham a Selic com defasagem de alguns meses e com repasse parcial. O juro médio do crédito livre para pessoas físicas, que engloba essas modalidades, já vinha cedendo — passou de 63,88% em junho para 60,04% em julho.

O que fazer: se a contratação pode esperar dois ou três meses, esperar tende a valer a pena. Se não pode, cote em pelo menos três instituições — a dispersão de taxas entre bancos para o mesmo perfil de cliente costuma ser maior do que o efeito de um corte da Selic.

Resumo: onde o corte chega

Dívida Custo típico Reage ao corte da Selic?
Rotativo do cartão O mais alto do mercado; teto legal de 2× a dívida Quase nada
Cheque especial Até 8% ao mês (~151,8% ao ano) Quase nada — o teto é fixo
Crédito pessoal Dentro da média de 60% ao ano do crédito livre Parcialmente, com defasagem
Financiamento de veículo Varia muito por perfil e entrada Parcialmente, com defasagem
Consignado INSS Até 1,80% ao mês (~23,9% ao ano) Sim, é o mais sensível
Financiamento imobiliário TR mais taxa fixa Pouco, e só em contratos novos

A ordem para quitar, se você tem mais de uma dívida

A regra é simples e não depende de conjuntura: pague primeiro a de maior taxa, mantendo o mínimo das outras. Na prática, isso quase sempre significa:

  1. Rotativo do cartão
  2. Cheque especial
  3. Crédito pessoal não consignado
  4. Financiamento de veículo
  5. Consignado
  6. Financiamento imobiliário

E vale repetir o que já dissemos no guia de onde investir com a Selic a 13,75%: não existe investimento em renda fixa que ganhe do rotativo. Quitar uma dívida de três dígitos ao ano é o melhor retorno garantido disponível para qualquer pessoa física no Brasil.

Perguntas frequentes

A Selic caiu. Meu cartão vai ficar mais barato?

Praticamente não. O rotativo é precificado por risco de inadimplência, não pelo custo de captação, e historicamente quase não acompanha a Selic.

Qual é o teto de juros do rotativo do cartão?

Não há teto de percentual. Desde 1º de janeiro de 2024, o que existe é um limite sobre o total: a dívida não pode ultrapassar o dobro do valor original, somados juros e encargos. Vale para dívidas contraídas a partir daquela data.

Quanto pode ser cobrado no cheque especial?

No máximo 8% ao mês, por regra do Conselho Monetário Nacional em vigor desde janeiro de 2020 — o equivalente a cerca de 151,8% ao ano.

Qual é o teto do consignado do INSS em 2026?

1,80% ao mês para o empréstimo consignado e 2,67% ao mês para o cartão consignado e o cartão benefício, conforme decisão do Conselho Nacional de Previdência Social.

Vale a pena esperar a Selic cair mais para financiar um imóvel?

O repasse ao crédito imobiliário é lento e parcial, porque boa parte do funding vem da poupança, que não mudou com o corte. Esperar por esse motivo específico tende a render pouco.

O que é portabilidade de dívida?

É levar um empréstimo que você já tem para outro banco que ofereça taxa menor. O banco original pode cobrir a proposta para manter o cliente. Funciona especialmente bem no consignado.

Quando é a próxima reunião do Copom?

A próxima decisão sobre a Selic sai em 4 de novembro de 2026.

Este texto tem caráter informativo e não é recomendação financeira. As taxas citadas são as vigentes em 21 de setembro de 2026 — confira as condições atualizadas com a sua instituição antes de contratar.

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